sexta-feira, 24 de agosto de 2012

As concierges desta vida

Houve uma altura em que era uma sorte conseguir arranjar trabalho como porteira num dos prédios de Paris, durante aquelas valentes vagas de emigração entre as décadas de 60 e 90. Era uma das melhores formas de poupar, diziam elas quando regressavam de vacances a Portugal. Era ter casa, água e luz de graça por aceitar tomar conta da portaria, limpar escadas e despejar a poubelle. Só que apenas isso não chegava para amealhar dinheiro e voltarem ricos para a sua terra. Eram as sopas knor á noite, 1 coxa de galinha a cada um ao almoço e até o dividir uma folha de rolo de cozinha em dois para fazer de guardanapo para o casal (não, ninguém me contou, assisti com os meus próprios olhos). Pensei durante muitos anos que o facto de estarem longe do seu País e da família lhes toldava o raciocínio para fazerem estas tonterias de se privarem de viver, para apenas sobreviverem no sitio onde tinham emigrado e hoje tive a prova que afinal estava enganada. Existe mesmo uma espécie de mulher com genes de\ou para concierge, não é só da mudança das águas, dos ares ou do jet lag!
Então quem sofre desta doença tem como ambição comprar uma casa (mesmo sendo o mercado de arrendamento muito mais apetecivel nos dias de hoje), casar com um vestido com os folhos, o tule, a renda a cauda e o que mais vier agarrado e brilhe muito. Depois não pode faltar a banda que toca as músicas  do quim barreiros no baile, sem esquecer o leilão da liga para terem uns trocos para gastar numa lua de mel no México, onde vão enfiados num daqueles charters cheios de recem casados que batem palmas como loucos assim que o comandante aterra o avião (era bonito se em todas as outras profissões batessem palmas por fazermos bem o nosso trabalho, ah e chegarmos vivos a casa). Então e o que fazem as concierges desta vida para conseguirem isso, quando o mercado de trabalho em França já está saturado? Pois têm que se desenrascar por terras Lusas da melhor forma possivel e uma delas passa por estar 7 anos sem ir ao cinema! Sim, foi isso mesmo que ouvi quando hoje duas colegas falavam sobre ir assistir ao filme do Batman. Então diziam uma para a outra que estavam naquele avançado estado de privação sensorial (palavras minhas, que elas não sabem o que isso é), porque era preciso amealhar dinheiro sendo que os bilhetes de cinema são muito caros e atrapalham os objectivos de toda uma vida! Mas quem tem alma de concierge consegue sempre encontrar conforto em qualquer outra que acha muito importante o sacrificio e a poupança nem que para isso se limpe a poubelle dos outros toda a vida e que rapidamente lhe responde - Deixa lá que eu também já não vou ao cinema há 3 anos...
Que será daquelas pobres almas quando descobrirem que já existem filmes em 3d e que além das pipocas também já se pode levar um copo de coca cola para dentro da sala? Provavelmente o pensamento será - e quando o filme acabar quem será que limpa as poubelles?


2 comentários:

Imperatriz Sissi disse...

FA-BU-LO-SO, querida Su, uma delícia!
Essa da "mentalidade de concierge" devia entrar para o vocabulário blogosférico, ou mais ainda *Clap* *Clap*

Ao Virar da Esquina disse...

Pode ser que a moda pegue ;-)