sexta-feira, 9 de novembro de 2012

5 de Novembro 2012 - hora 16.17

Foi quando faleceu a minha mãe. Consegui estar com ela por volta das 14:30h quando ainda estava viva. Honestamente gostava que tivesse sido como nos filmes, em que nos conseguimos despedir de alguém com serenidade e aceitação, mas não foi. Porque eu estava nervosa, porque não sabia muito bem a situação que ia encontrar quando abriram a porta do quarto e me disseram que podia estar com ela. A minha preocupação era tentar entender o seu estado. Ia viver mais algumas horas? Mais um dia? Olhei e chamei por ela... não me respondeu. Estava drogada demais para não ter dores e com a máscara de oxigénio a tapar parte do rosto. Subitamente, senti-me suja para a tocar. Pousei o casaco e a mala, fui á mesa de trabalho das enfermeiras, lavei as mão e desinfectei, respondi que estava tudo bem, não precisavam de se preocupar porque não me estava a sentir mal nem ia desmaiar. Voltei para junto da minha mãe e chamei de novo... nada. Mas afinal quando foi a última vez em que reagiu a um estímulo? Alguém me diz que foi por volta da hora de almoço que a chamaram pelo nome e ela olhou. Achei que era preferivel fazer umas festas na cara, porque com o toque iria perceber que eu estava ali. Pestanejou, mas não conseguia abrir os olhos. Nesse momento deveria fazer a minha despedida sentida, mas como o meu cérebro vive em formato de resolução de problemas pensei - e o meu pai? Tenho que o ir buscar já para que se possa despedir dela. Avisei que o ir buscar e saí do quarto. Enquanto esperava pelo elevador e no caminho para o carro mandei msg para a familia que estava em èvora vir logo para o hospital. Não conseguia falar, enviei sms para todos. Cheguei a casa dei a noticia ao meu pai e a uma das melhores amigas da minha mãe e fomos os 3 para o hospital. Quando lá chegamos estava viva, esperamos 10 minutos á porta do quarto para podermos entrar. Houve uma súbita urgência naquele momento as enfermeiras correram para lá chamaram, o médico e nós esperamos cá fora. Quando vltaram foi para dizer que já tinha falecido. Entramos os dois, estava um ambiente muito sereno no quarto. Fechei os olhos à minha mãe, ajeitei o cabelo como ela gostava e então fizemos a nossa despedida apenas ao seu corpo.
A partir daí foi o habitual nestas circuntâncias, muito choro, muita gente a receber a noticia muita confusão.

Notas a reter nesta situação (porque afinal são os vivos que nos surpreendem).

As amigas da minha mãe tiveram um comportamento muito digno, emocional mas ordeiro. Não houve ninguém a vomitar, a ter quebras de tensão a desmaiar e o que mais que seja, como já assisti em outros casos.
A minha familia foi fantástica. Estiveram sempre cá, foram o mais positivos possivel e ajudaram a tratar de tudo para o funeral.
Todos quiseram participar e pagar uma parte das despesas entre familia e amigos.
O meu namorado foi e tem sido inexcedível. Saíu do trabalho a correr para chegar a tempo ao hospital e quando lhe disse que já tinha falecido ficou muito perturbado. Achou que não se tinha despedido devidamente, quando na noite anterior foi ela que o chamou ao quarto e foi o último a estar com a minha mãe. Ficou em silêncio a abanar o leque porque tinha sempre muito calor e acabou por adormecer nesse gesto dele. Acho que não há despedida mais bonita do que deixar alguém a dormir junto da nossa tranquilidade.
Desde a noticia que não me deixou ficar sozinha uma noite que fosse. Vai trabalhar e regressa todas as noites para junto de mim, porque as noites são o mais dificil de passar. O silêncio e a solidão trazem muitos pensamentos e angústias. Ter alguém que nos abrace durante a noite ajuda a suportar tudo.

Aquilo que não me surpreendeu

O meu pai, que continua a exteriorizar muito pouco os seus sentimentos e que se manteve firme como uma rocha em todos os instantes.
A minha amiga a comadre Sofie que quando apareceu no velório e no funeral trouxe com ela uma paz que poucos conseguem. Passados tantos anos de relação continua a ser a pessoa com quem me sinto mais á vontade para ser simplesmente eu.
Houve alguém que durante muitos anos me questionei se estaria presente quando a morte da minha mãe chegasse. Sempre acreditei que a sua resposta a esse facto diria tudo quanto ao seu carácter e quanto áquilo com que poderia contar. Hoje já sei, já tenho a resposta. Teve a informação e não veio. Não me parece que numa situação de dor e de morte quem sofre precise de espaço, mas sim de conforto.
Não me surpreendeu também a paz com que partiu, o sol que fez nessa manhã e a missa mais intima e sentida a que alguma vez assisti. No final da cerimónia funebre, muitos foram os que pediram ao padre o poema com que terminou aquele momento e com o qual se despediu dela entre lágrimas.
Foi tudo radioso, sentido e pacifico, como a minha mãe merecia.

2 comentários:

menina lamparina disse...

Ando há muito tempo sem saber o que te escrever aqui. Acho que nestes momentos não há nada que se diga ou escreva que possa servir de consolo. Nada muda a dor da perda, a saudade, a tristeza.

Se não digo nada, é por respeito. E então deixo um abraço, um beijinho e a certeza de que mesmo de longe, há na blogosfera quem esteja a torcer para que sejas inundada de força.

Beijinho*

Ao Virar da Esquina disse...

Obrigada :-) Nesta circunstâncias também me sinto muitas vzs como tu.

Beijinhos