quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Voltei a ser eu

Como bicho raro que sou, funciono ao contrário da maioria. Pequenas coisas vão moendo a minha paciência, As contrariedades diárias vão consumindo o meu bem estar. Situações inesperadas por minimas que sejam levam-me ao desespero. Estou numa fila de trânsito e choro porque vou chegar tarde. Perdi a máquina fotográfica e choro porque é coisa que nunca me aconteceu na vida. Não sei onde coloquei as chaves de casa e berro com os cães que se atravessam á minha frente e dificultam a minha busca do objecto perdido. Ando um caco, não durmo bem, a alimentação é feita de qualquer forma e ando sempre a correr para tudo quanto é sitio.
De repente há um click. Uma situação mesmo grave. A minha mãe caiu esta manhã e está internada a aguardar uma cirurgia ao fémur. Não existem muitas palavras para descrever a noite de ontém e as horas que se passaram até agora. Desde as crises de falta de ar, aos vómitos, aos delirios, a passar a noite acordada até ás 4h da manhã porque de 10 em 10 minutos a minha mãe se levantava da cama para fazer alguma asneira e eu a perseguia pela casa com medo que o pior pudesse acontecer. Pois, aconteceu. Hoje de manhã depois de já ter sossegado e dormido 5h, perguntei o que queria comer e fui á despensa buscar. Estava calma, mas ainda assim disse-lhe que ficasse sossegada na cama, que ia só á cozinha buscar um fortimel e estaria de volta. Toca o telefone ... alguém a  perguntar como tinha passado a noite. Passaram 5 minutos e começa a chamar. Fez tudo aquilo que lhe disse para não fazer. Levantou-se da cama, foi trocar a blusa do pijama, caiu e rachou o fémur.
Tive o sangue frio (que é coisa que sempre me assiste quando a situação é grave) de lhe perguntar se lhe doia algo e como se sentia. Apalpei, toquei e percebi que lhe doia a zona da anca. Estava sozinha em casa e liguei para uma amiga que vive próximo para me vir ajudar, em 10 minutos ela estava em minha casa. E foi assim que este ser frágil e hipersensivel teve a inteligencia e o sangue frio de ficar junto da mãe até a amiga chegar. De não deixar de forma alguma que ela mudasse de posição ou de a deslocar do sitio onde estava. De chamar o inem, e com a maior das calmas lavar a cara e os dentes, por creme, vestir-me, colocar uma garrafa de água na mala, umas bolachas e uma maçã e os exames da mãe para mostrar ao inem. ECG com 1 semana, guia de tratamento, informação da citigrafia feita ontém. Informar que a mãe é alergica á penincilina. Deixar que fosse na ambulância, avisar o médico dela, que estava a ir para o hospital e ir buscar o pai ao barbeiro para irmos juntos para o hospital.

Pequenas coisas destroçam-me. Grandes coisas fazem de mim alguém coerente, responsavel, controlada. Alguém que domina a situação. Alguém que liga para a familia a explicar o que se passou e ouve do outro lado da linha um grande choro e uma lamúria de - Ai e agora? E o que é que vamos fazer?
E responder calmamente - Nós não vamos fazer nada. A mãe vai ser operada, vai correr tudo bem e quando voltar para casa vou fazer uma escala com turnos para nos organizarmos de forma a ficarmos com ela. De resto é esperar e ser positivo.
E hoje finalmente escrevo mais do que meia dúzia de linhas, enquanto sei que ela está internada na ortopedia e tem todos os cuidados necessários. E hoje estou calma. Sinto-me sensata de novo, organizada, em controlo da situação, porque no fundo não há mais ninguém para fazer aquilo que eu faço e tomar as redeas da situação. E se eu pudesse escolher, essa pessoa não seria eu. Não teria sido eu a chamar o inem nem a estar em casa com ela. Não teria sido eu a assinar o consentimento para a cirurgia, quando sei que é aquilo que mais a assusta neste mundo, apesar de ser necessário.
Mas já que sou eu a ter que fazer tudo isto, que seja bem feito. E ainda sobra tempo para consolar os outros e dizer que vai correr tudo bem.
Daqui a 15 dias posso chorar patéticamente porque perdi mais um brinco e porque coitadinha de mim mimimi tudo me acontece! Mas até lá vai correr tudo bem com a minha mãe.


3 comentários:

Palco do tempo disse...

apesar de tudo es uma fortaleza em pessoas!

menina lamparina disse...

Surpreendemo-nos sempre com a força que temos na fraqueza. É isso que distingue as pessoas verdadeiramente fortes das outras. Abracinho*

Ao Virar da Esquina disse...

Obrigada pelas palavras. É bom saber que vcs estão aí :-)